Search

    A minha Lista de blogues

    contador

    Loading...
    Ocorreu um erro neste dispositivo
    Ocorreu um erro neste dispositivo
    Ocorreu um erro neste dispositivo

28/11/08

O menino da sua mãe










A Virgem de Granada
Leonardo da Vinci, 1475-1480

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.


Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Pronta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o troxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa, Cancioneiro


Porto de Abrigo

0 comentários: