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01/07/09

A Terra


(Van Gogh)
A Terra
Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.
Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.
Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!
Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.
Terra, minha aliada
Na criação! Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!
E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.
Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!
A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.
Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!
Miguel Torga

1 comentários:

entremares disse...

Vagarosamente, mergulhou.
O mundo, sob a superfíce das águas, continuava tranquilo ... e silencioso.
O silêncio era, aliás, uma característica única no reino de Neptuno; abaixo da superfície, as criaturas regiam-se por um código de silêncios, entrecortado de curtos chamamentos, alguns silvos mas, principalmente... muito silêncio.
Uma anémona estendeu-lhe os tentáculos, ondulantes ao sabor da corrente.
Alguns raios de luz, tremeluzentes, projectavam-se sobre o fundo arenoso, imitando uma dança fantasmagórica de luz e sombra, formando padrões caleidocópicos, irrepetíveis.
Espreguiçou-se, prazenteiro.
A vida é bela – pensou – e eu sou um felizardo...
Um grupo de pequenos peixes coloridos desviou-se, timidamente, procurando refúgio sob as folhas protectoras de uma alga.
Ignorou-os.
Adorava aquela sensação de liberdade, dos espaços vazios, da corrente mansa que ora o puxava, ora o arrastava de encontro aos corais, impávidos e serenos, a contemplar os raios de sol, filtrados pelas águas cristalinas.
Nadar sob a superfície das águas era – sembre o soubera – quase como voar; uma sensação de leveza, de desprendimento, de abandono. De êxtase, até.
Contornou um banco rochoso e ... lá estava ele.
Emergindo das profundezas, como um gigantesco esqueleto, os destroços da velha embarcação de piratas contrastavam com a areia branca, aqui e ali já envoltos por uma manto verde de pequenas trepadeiras e uma minúscula penugem, que brevemente se iria transformar em musgo.
Há quanto tempo ali estaria ?
Sempre o conhecera ali... imóvel e vigilante, a servir de refúgio aos cardumes de peixes tropicais que o haviam adoptado como lar.
Contornou-o, vagarosamente, afugentando os desconfiados ocupantes que, contra-vontade, viam a sua casa invadida pelos olhares furtivos daquele intruso.
Um pequeno peixe azul brilhante surgiu de repente, por entre as vigias da ponte, para logo voltar a desaparecer.
O mastro principal, porventura outrora majestoso, de velas brancas desfraldadas ao vento, jazia agora no convés, partido em dois; até a roda do leme, por um provável capricho do movimento das águas, rodava sózinha, guinchando lúgubre nos eixos enferrujados...
Sempre gostara de visitar aquele local. Transmitia-lhe uma paz acrescida, talvez por lhe soltar a imaginação, ou simplesmente pelos inúmeros recantos que podia explorar... quem sabe até, encontar algum tesouro ...
Ia precisamente entrar por um dos orificios do casco quando a superfície das águas estremeceu.
Olhou para cima, ao mesmo tempo receoso e impaciente.
Pequenas sombras desenhavam-se na superfície, impedindo a luz de se projectar sobre o fundo de areia.
O tempo passara assim tão depressa ?

Agitou as barbatana douradas e lançou-se para a superfície. Aquelas sombras só podiam significar uma coisa... comida.
Para trás ficou o pequeno barco de piratas, já revestido de um manto de musgo verde, as conchas, o tubo transparente por onde saíam intermináveis bolhas de ar, mesmo junto da roda do leme.
Voltou a contornar a anémona e o bando de peixinhos coloridos que, como ele, se projectavam sôfregos para a superfície, na busca dos pequenos pedacinhos de alimento que alguém atirava nesse momento para dentro do aquário.
- A vida é bela – voltou a repetir, enquanto abocanhava o primeiro pedacinho de alimento - ... e eu sou um felizardo...